Stella Fontes, de São Paulo
O suposto interesse da Votorantim nos ativos da Cimpor, que já é alvo de duas ofertas diferentes, de compra e de fusão, por parte de grupos brasileiros, levantou questionamentos sobre maior concentração no mercado brasileiro de cimento e redistribuição de forças na indústria, que mundialmente é reconhecida como um oligopólio natural, a partir dessa movimentação. "Que pode ocorrer maior concentração, não há dúvida. Mas é preciso uma análise regional e mais detalhada para saber se o impacto é relevante", afirma o advogado Mário Nogueira, sócio do escritório Demarest & Almeida Advogados.
Localização das fábricas e presença de outros produtores na mesma região poderão pesar em alguma restrição por parte do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Conforme Nogueira, em geral, o Cade utiliza como padrão um raio de 400 a 500 quilômetros entre unidades produtoras para avaliar o impacto no mercado - por ser um produto de baixo valor agregado, o cimento tem preço bastante sensível ao frete e, portanto, não costuma percorrer grandes distâncias entre fábrica e consumidor. "Assim, se houver duas unidades, poderia haver problema. Mas o Cade ainda iria observar se há mais ofertantes na mesma região", pondera.
Líder com 41% das vendas de cimento no mercado brasileiro, a Votorantim conta com mais de 40 unidades de cimento, argamassa, cal, calcário agrícola e agregados no país, além de operar quatro fábricas de cimento nos Estados Unidos, duas no Canadá e uma em Puerto Soares, na Bolívia. Em solo brasileiro, está presente em todos os Estados em que a Cimpor atua, com exceção de Alagoas. "Uma questão importante é se valeria, para a Votorantim, correr o risco de ter de abrir mão de unidades no Brasil por conta da lei da concorrência em troca da operação internacional da Cimpor", diz o analista Pedro Galdi, da SLW Corretora. A Cimpor produz em 13 países e é a 10ª maior cimenteira do mundo.
Veiculada pela imprensa portuguesa, a notícia de que a Votorantim poderia entrar no páreo pela cimenteira portuguesa, ao lado de Camargo Corrêa e CSN, não foi comentada pelo grupo. No fim do dia, a CMVM, que regula o mercado de capitais português, pediu esclarecimentos sobre o suposto interesse, conforme a mídia local. Já a Camargo Corrêa informou à CMVM que está analisando opções, após o órgão ter solicitado a reapresentação de sua oferta.